Estamos vivendo uma nova fase da inovação?

 

Hoje, fala-se muito em inovação, como se fosse algo novo e recente na nossa sociedade. Contudo, a inovação ela remete a milhares de anos, sendo uma característica que praticamente nos acompanha desde que o homem saiu da África.

Por conta dela, conseguimos aprender a fazer o fogo, criamos o arco e flecha, melhoramos a produtividade, combatemos pandemias, entre tantos outros exemplos.

E, se inovação é algo tão antigo, por que estamos dando tanta importância para o tema nos dias de hoje? Talvez, a resposta para essa pergunta remonte à época pós-Segunda Guerra Mundial, onde um conceito chamado crescimento contínuo surgiu.

Nesse conceito, as empresas e, consequentemente, a sociedade, poderiam crescer continuamente com a ajuda da ciência e tecnologia. Entretanto, esse crescimento simplesmente ignorou a finitude dos recursos naturais.

Nesse sentido, para alcançar se manterem em crescimento, as empresas criaram vários modelos capazes de maximizar a criatividade e a inovação, criando modelos organizacionais padrões da nossa era.

Com isso, várias organizações mundiais, principalmente as europeias, em conjunto com a OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, começaram a desenvolver diretrizes e manuais para classificar a inovação, definindo métricas de desempenho que deveriam ser seguidas.

Por conta da criação dessas diretrizes, algumas crenças implícitas foram atribuídas à inovação. Entre elas, a de que a inovação, especificamente a tecnológica, traz mais benefícios sociais do que danos à sociedade, ou que a inovação leva a empregos melhores e mais bem remunerados; ou ainda que ela melhora a eficiência, implicando em menores custos e gerando produtos mais baratos.

Porém, quando analisamos essas crenças de perto, vemos que elas, muitas vezes, não se sustentam, pois estudos como da OIT – Organização Internacional do Trabalho, mostram que, nas últimas três décadas, houve um acréscimo considerável na produtividade das empresas e, isso não foi acompanhado de um aumento real de salário para os colaboradores.

Outro ponto importante é que tendemos a pensar que nunca inovamos tanto como atualmente. No entanto, quando analisamos o número de patentes mundiais, vemos uma taxa de crescimento muito menor se compararmos com outras épocas, como, por exemplo, as décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, talvez a sociedade não esteja inovando tanto quanto imagina.

Fonte: World Intellectual Property Organization - WIPO. Acessado em 17.03.2021.

 

 

Fig 1 – Comparação do crescimento do número de patentes dos paises emergentes

Fonte:  World Intellectual Property Organization – WIPO.

 

 

 

World Intellectual Property Report 2011

 

 

Fig 2 – Comparação do crescimento do número de patentes dos 6 maiores escritórios de patentes mundiais

Fonte:  World Intellectual Property Organization – WIPO.

 

 

 

 

 

O motivo para esse fato pode ser a miopia organizacional, onde vemos inovação apenas em processos ou em mudanças de tecnologias, deixando de analisar outros tipos de inovação.

Nesse sentido, uma metodologia muito interessante é a Business Model Navigator, que foi desenvolvida pelos Prof. Dr. Oliver Gassmann e Prof. Dr. Karolin Frankenberger, em 2020. Nela, são apresentados 55 tipos de inovação em modelos de negócios.

Ainda assim, estamos “presos” à mentalidade do crescimento contínuo. Mas, e se ele não for sustentável e a tecnologia e inovação não forem suficientes para garantir o acesso aos recursos naturais de forma ilimitada? Qual será a saída para continuar inovando?

Nesse cenário, Ivan Illich e André Gorz, propuseram, na década de 1970, que o crescimento excessivo de ferramentas e tecnologias são incompatíveis com uma sociedade sustentável. Ou seja, eles tentaram dissociar a inovação do crescimento contínuo. E, para isso ocorrer, a inovação deveria ser ressignificada.

Para conseguir essa dissociação, Illich propôs a noção de ferramentas de convívio, onde as tecnologias e a inovação aprimoram a colaboração, ajudando a diminuir as desigualdades sociais. Dessa forma, a inovação poderia ser usada como uma ferramenta para combater a desigualdade social. Assim, a noção de convívio embute uma ambição muito maior do que a de aumentar a produtividade, comumente associada à inovação tecnológica convencional.

Em termos práticos, as tecnologias para serem ‘convívios’ devem apresentar cinco características centrais: relação, que é o que a tecnologia traz de benéfico para as pessoas; acessibilidade, a possibilidade de leigos gerenciarem e controlarem as ferramentas; adaptabilidade, a capacidade das ferramentas de convívio se adaptarem a diferentes escalas; biointeração, a ideia de não apenas ser menos prejudicial ao meio ambiente, mas ser útil em um ciclo ecológico; e adequação, que é refletir sobre o contexto e as circunstâncias locais).

Movimentos como Do It Yourself (DIY), ou do código aberto (software sem licença patenteada) como o Linux, mostram que, talvez, esse seja o caminho para chegarmos a um novo modelo de inovação. Nesse contexto, se faz necessário pensar em inovação em um prisma maior –e não apenas para aumentar a produtividade e o lucro das empresas.

Essa visão é tão disruptiva que uma das escolas de negócios mais importante do mundo, a ISO – International Organization for Standardization, definiu a inovação como um conceito é caracterizado por novidade e valor, sendo que esse valor pode ser financeiro e não-financeiro. No segundo caso, é possível notar valor como ações de impacto social e/ou ambiental. Essa definição está presente na ISO 56002, de gestão da inovação.

Hoje, os padrões ISO definem as principais diretrizes de negócios do mundo, visto que suas normas e sistemas de gestão são desenvolvidos por meio de um consenso entre os mais de 160 países-membro da organização.

E, quando uma instituição dessa magnitude aponta para aspectos de valores não-financeiros para a inovação, isso demonstra que podemos estar entrando em uma nova fase da inovação. Nessa fase, a inovação social e ambiental deve ter tanto ou até mais valor que a inovação tradicional, que foca exclusivamente na melhoria operacional.

Todos os modelos da ISO são baseados em padrões de governança e, quando expandimos esses conceitos, vemos que esse modelo vai ao encontro do que foi proposto por Illich, no que tange dissociar a inovação do crescimento. Nessa proposta, a inovação é usada para melhorar o bem-estar geral, e não apenas aumentar a produtividade de forma contínua.

Apesar de não estarmos inovando tanto quanto antes, talvez esse momento que vivenciamos seja ímpar, onde passamos a olhar para as contribuições de valores não-financeiros como potencial gerador de inovações para o bem-estar social e para a recuperação dos recursos naturais – que nós estamos usando de forma indiscriminada desde a revolução industrial no final do séc. XIX. A busca por novos modelos de negócios deve ser a principal locomotiva da inovação atual.

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