A importância do ESG para o futuro de um novo modelo econômico mundial

Após dois anos de pandemia, podemos olhar para trás, tirar algumas lições e repensar a forma do nosso modelo econômico atual – baseado no crescimento contínuo e em uma economia fóssil (hidrocarbonetos). Até o início do isolamento social, acreditávamos que esse era o melhor modelo econômico para nossas organizações, certos de que o crescimento contínuo elevaria os padrões de prosperidade para todos e, que os recursos naturais poderiam ser utilizados a de eterno.

Por conta desses pensamentos, várias métricas foram criadas para medir o crescimento contínuo das organizações e, consequentemente dos países – uma vez que a somatória de toda riqueza das organizações reflete diretamente na do país. Nesse contexto, criamos o PIB e, tantas outras métricas de crescimento e acumulação de riquezas contínuas. Qualquer visão econômica que se diferenciasse dessa metodologia, em consequência, era considerada irracional.

Com o advento da pandemia, contudo, foi necessário rever essas questões e enfrentar não apenas uma, mais sim, duas grandes crises simultaneamente: a da COVID e, do aquecimento global. Ambas as crises estavam interligadas, uma vez que nossa economia fóssil faz com que percamos a biodiversidade, propaguemos doenças e, com isso, reduzimos a barreira de transmissão entre humanos e animais portadores de vírus, como o Coronavírus.

 

Nesse cenário pós-pandemia, temos a oportunidade de reestruturar todo nosso modelo econômico para um mundo “descarbonizado” – criando, assim, novas oportunidades, empregos e equilíbrio na balança social. Neste novo contexto, empresas com conscientização ESG (Environmental, Social, and Corporate Governance) podem ser extremamente importantes.

A sigla surgiu pela primeira vez em 2004, em um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) intitulado “Who Cares Wins” (“Ganha quem se importa”, em tradução livre). Com 20 instituições financeiras de nove países, o documento foi criado para estabelecer diretrizes que incluíssem as questões ambientais, sociais e de governança para o mercado financeiro.

Dentre os principais pontos destacados, o relatório apontou que se preocupar com estes três valores pode, além de trazer benefícios para a sociedade, agregar valor aos negócios, visto que tais princípios são cada vez mais primordiais para o investidor moderno.

Apesar de ter sido voltado ao mercado de investimentos em seu início, este conceito foi ganhando cada vez mais notoriedade em outros setores da economia ao longo dos anos. Em 2015, o movimento ganhou ainda mais força com a Agenda 2030 da ONU, e o Acordo de Paris – ambos focados nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Posteriormente, em agosto de 2019, o Business Roundtable – grupo empresarial que reúne os líderes das maiores companhias norte-americanas – divulgou uma carta rompendo com a ideia de que os negócios existem apenas para dar retorno aos acionistas.

Em 2020, com a pandemia de Covid-19, ficou ainda mais evidente a necessidade de uma agenda de desenvolvimento consciente. Para reforçar este contexto, o Fórum Econômico Mundial lançou, na Reunião Anual de 2020 em Davos, um guia de métricas com base nos valores de ESG – prática que, foi novamente abordada no encontro de janeiro de 2021.

 

Em uma demanda latente e, fortemente impulsionada pela pandemia, as empresas que possuem estes princípios e visões, serão fundamentais para uma restruturação da nossa economia em um mundo pós-crescimento –  mas, ainda estamos muito aquém do adequado. Em um estudo feito com PMEs (pequenas e médias empresas) europeias em 2018, apenas 2% das empresas estão focadas em um crescimento contínuo, sendo que 25% não tem nem métricas para mensurar o crescimento explicito.

Companhias com foco em ESG estão liderando o que podemos definir como um modelo econômico estável, pautado em uma produção sustentável, na utilização de recursos renováveis em uma taxa menor que a sua regeneração, poluição dentro dos limites que o planeta aguenta e, um crescimento populacional alinhado com uma produção finita – enquanto no modelo de crescimento contínuo, a produção das organizações era considerada infinita, algo que sabemos não ser mais sustentável.

Em conjunto, empresas voltadas a este modelo de gestão, focam suas energias na ecoeficiência dos seus processos e produtos. Este conceito se refere à disponibilização de serviços e bens capazes de satisfazer as necessidades humanas e, proporcionar qualidade de vida sem causar impactos ambientais, gastando o mínimo dos recursos naturais não renováveis para um futuro mais sustentável.

Praticamente, a ecoeficiência é pautada em oito grandes princípios:

 

  • Diminuir o consumo de materiais com bens e serviços;
  • Reduzir o consumo energético com bens e serviços;
  • Minimizar a liberação de substâncias tóxicas;
  • Ampliar a utilização sustentável de recursos renováveis;
  • Promover a reciclagem dos materiais usados;
  • Maximizar a utilização consciente dos recursos renováveis, fomentando a sustentabilidade;
  • Estender a vida útil dos itens;
  • Auxiliar na educação do público sobre a gestão de recursos naturais e energéticos.

 

Se esses aspectos forem adotados, a empresa estará no caminho certo para a ecoeficiência. Por consequência, o desempenho financeiro será positivo e, a experiência do público favorável. Afinal, seu objetivo é, justamente, trazer mais rentabilidade a partir da utilização de menos matérias-primas.

 

Apesar de todo nosso sistema econômico estar pautada no crescimento contínuo, iniciativas com as das empresas ESG podem, e devem, nos ajudar na transição para uma economia focada no bem-estar humano e, na melhoria das condições ecológicas. Sabemos que esse novo mindset representa uma mudança política – porém, as crises da pandemia de COVID-19 e do aquecimento global mostram que os caminhos escolhidos pela humanidade, até o momento, não são mais sustentáveis. Precisamos de novos modelos econômicos para poder continuar evoluindo.

Precisamos criar métricas que identifiquem a “saúde” financeira da organização, levando em considerações outras ferramentas de medição como benefícios sociais gerados pela empresa, foco na economia local em detrimento do global, ecoeficiência dos produtos e processos, entre outros. Afinal, o crescimento econômico responsável pela saúde e o bem-estar é o “crescimento antieconômico”, uma vez que os custos ambientais e sociais negativos superam os benefícios de alta produção (Herman Daly, 2014).

Nós, como sociedade, temos o poder e o dever de pensar nessas questões, entendendo que o modelo econômico atual não é mais sustentável. Apesar de essa mudança ser uma decisão política, podemos influenciá-la dando prioridade para as empresas ESG e, assim, mostrar para os políticos e tomadores de decisão, qual o rumo que queremos para a nossa sociedade.

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